quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Descontentamento


Cheirava álcool, vestia paletó e calça pretos, falava coisas desconexas, não sabia se sentava ou ficava em pé. Enquanto fazia seu discurso, outras pessoas assim como eu, o observava.
Reclamou de Deus, de ter nascido pobre, negro, morar em Osasco e que gostaria de ser ator já que se achava parecido com o Denzel Washington.
Arrancou alguns sorrisos, que o deixou mais confiante em continuar a falar sobre suas angústias e infelicidade com Deus.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Lembranças



Sua mãe o acordou perguntando se estava bem, sem responder, olhou a hora no celular que ficava próximo a cabeceira de sua cama. Sentou-se, a respondeu, retomando a consciência, se deu conta de que estava um tanto atrasado. Assim como costuma fazer, pensou naquela pessoa que o já inspirou muito e que talvez inspire ainda, mas não da mesma maneira, foi para o banho que usualmente utiliza para meditar, porém hoje, não o fez... Olhou pela janela, viu a garoa, se imaginou andando e concluiu, vou de carro...
Ao fechar o portão, ela o aconselha e de longe se despede desejando-lhe um bom dia. No caminho ouviu na rádio sobre o transito, protestos, economia, decidiu não ir até seu destino de carro e sim, deixar na metade do caminho, evitando o trafego.  Dobrou a esquina, avistou a vaga, estacionou, saiu do carro, acionou o alarme e ao levantar os olhos para investigar quem estava na rua, avistou a mesma pessoa que pensou momentos antes.
Saudade, carinho, raiva, mágoa e quem sabe até o próprio amor o fez travar diante da situação, por instinto, saiu em disparada sem olhar para trás.
Atravessou a rua, avistou o trem chegando, correu, sentou-se, olhando o celular para tentar disfarçar a ansiedade e sem levantar os olhos a procura de nada, nota que quem ele tanto temia, estava na sua frente.
Esse temor, não é despropositado, descomedido ou sem fundamento, é um temor com base nas situações do passado, temor de falar algo, ou fazer algo que colocasse tudo a perder/ganhar/empate...
Ainda com os olhos abaixados, ouve:
-Oi, bom dia, tudo bem? Você não me viu? Fiz bem de ter vindo falar com vc?
-Vi, tudo bem...
Tirou os fones de ouvidos e guardou o celular para tentar uma conversa com aquela pessoa que pareceu ser superior, talvez passando por cima dos mesmos medos... Falaram sobre trabalho e se estavam bem durante o caminho e pela primeira vez, não desviaram a conversa para assuntos desagradáveis, mas mesmo assim, a situação pareceu um tanto incomoda para os dois...
-Rezei por você ontem;
-Comentei de você ontem;
Chegaram ao seu destino, silêncio, sobem e descem escadas, andam em sincronia de passos, assim como antes. Um deles, lança um olhar e movimenta o corpo como se esperasse um abraço, o outro resiste, por medo, se despede e vai embora pelo lado oposto sem olhar para trás, mas com a vontade de retornar, falar que ama, que sente falta, mas por outro lado, milhões de outras questões, passam pela sua mente e chega a conclusão de que pensar nisso, por si só, não levaria em nada...
-Infelizmente ou felizmente, não sabemos quais os planos de Deus para a gente, mas é fato que nosso encontro hoje teve um propósito. Propósito esse, que ambos desconhecem...